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Poeta e contradições

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Fez-se encanto Transformou-se em poesia Dedicou-se a prosa Obedeceu cada verso Abriu a carta Silenciou a mensagem Epígrafe de coragem Sorteou um zelo epistolar Cansou-se de gravuras Puxou a literatura Sonhou o cordel Rimou com o céu Distraída e alternada Uma hipérbole calada No eufemismo do exagero Bebeu o poeta por inteiro

Álvaro Vince, sem roteiros (Parte IV)

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          As chamas do fogo dançavam no alto e davam beijos estalados nas paredes de madeira. O pequeno casebre fora totalmente consumido pelo incêndio. Não haveria nada ali que pudesse ser salvo.             O garotinho chorava e agarrava-se as pernas da mãe. Era a sua casinha. Por que seu pai tinha feito isso? Por que ele destruíra a própria casa? Onde eles iriam morar agora?             Olhou para cima, com a finalidade de observar o rosto da mãe. Ela não chorava, mas nos seus olhos ele podia ver uma dor lancinante. Abraçou-a com mais força do que podia com seus braços magricelos. Queria dizer com tal gesto que estava ali, do lado dela.             Seu pai sempre bebeu muito, brigou muito e de vez em quando lhe batia com força. Mas nunca antes tinha feito algo que ele considerava tal ab...

Bem-vindos! Mas não queiram ficar...

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Bem-vindos ao mundo no qual a demonstração de afeto é algo absurdo. Onde o amor é "coisa de filme" e os bons sonhos são bobagens. Bem-vindos ao mundo em que o egoísmo vale milhões e o caráter não vale mais do que alguns centavos. Bem-vindos ao mundo em que a alma não significa muita coisa e a fé é apenas um acessório a ser pendurado no pescoço. Sejam todos bem-vindos! Mas, por favor, não façam questão de ficar. Sempre podemos escolher o diferente e, quem sabe, construir um novo mundo. Está tudo aí, nas nossas mãos! G. C. L. A.

Às vezes é difícil dar tchau

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Às vezes é difícil dar tchau. Sair por aí, sem mais ninguém, com uma mochila cheia de esperança pendurada nas costas, procurando por si mesmo. E descobrir-se em uma antiga fotografia, com os cabelos despenteados, os olhos brilhando e o sorriso inocente de criança. As mudanças estão sempre nos acompanhando. Na nossa rotina quase cega, esquecemos-nos de ver o que fomos um dia e o que ainda deve permanecer em nós. Uma dica importante é guardamos a nossa essência em uma pequena  caixa, para que caiba na nossa mochila e não seja esquecida em nenhuma despedida. Adaptamos-nos ao meio. Ao convívio e ao que esperamos de nós mesmos. Nos cobramos tanto que esquecemos da simplicidade, do cheirinho de chuva e da rede armada na varanda. É como escrever o nosso nome e não reconhecer a própria letra, mas saber que aquilo ali, naquele papel, é sobre você. Os olhos não precisam ser rasos, nem decifráveis. Mas alma, com certeza, necessita de profundidade. Procurar-se e encontra-se. Há ...

Conto de olhos nublados e coração cego

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Pegou o seu Machado de Assis. Ficou divagando sobre a vida enquanto passava os dedos vagarosamente sobre a capa. Abriu o livro na página que estava marcada, mas não conseguiu formar sequer uma palavra na sua cabeça. As letras pareciam estar todas embaralhadas. Olhava para o papel e não via a história, nem a mão, nem a luva. Continuou com o livro aberto, entretanto já não tentava mais ler. Deixou que seus pensamentos lhe guiassem. Há muito queriam fazer isso. Uma lágrima caiu dos seus olhos. Não se preocupou em limpá-la, pois ninguém veria. Ela estava sozinha em casa. Tinha a personalidade inquieta e sorriso fácil. Gostava bastante de conversar, mas hoje não queria que as palavras saíssem da sua boca, preferia guardá-las ou se pudesse preferia esquecê-las. Fez o que jurara para si mesmo não fazer. Mas quem nunca? Quem nunca quebrou um juramento? Dissera para si mesmo que não se arrependera e que fora uma boa escolha. Entretanto, bem no fundo (talvez nem tão fundo assim), ela ...

Carta ao que já fui

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              Querido,             Durante muito tempo eu fui trapezista de um circo. Desses de pequeno porte que vagam em várias cidadezinhas para levar alegria e um pouco de diversão por onde passam. Eu adorava estar no picadeiro! Minha parte preferida era quando o público ficava admirado com as minhas piruetas e impressionados com a minha capacidade de dançar bem lá no alto... A vida era uma correria sem tamanho, mas não havia nada mais prazeroso nesse mundo do que ver as pessoas se aglomerando e sorrindo dentro daquela lona colorida, cheia de balões. Circos deveriam ser considerados a tenda das felicidades, por mais ilusórias que sejam, ao menos trazem distrações para quem tanto se preocupa com outras coisas, por menores que possam parecer.             Alguns dos meus dias não eram muito fáceis também. Entretanto, sempre que ve...

Retrato

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Estava totalmente perdido na imensidão desenfreada do destino. Ontem era apenas um menino. Veloz no seu caminhar e sem muito no seu pensar.Hoje, com sábias palavras sobre experiências vividas em tempos de alegrias contidas, no velho alcance do quebra-mar. Eram poucos passos para a sina enfadonha, chorando a velhice, o passado e a vergonha do lar descontínuo. Os braços não alcançavam mais os sonhos. O futuro era triste e medonho, não fazia jus ao que fora prometido. Não sabia nada sobre a morte, nem tampouco tivera a sorte para acolher um bom amigo. O frio invadia a madrugada. O clarão da velha estrada dava um toque sutil ao luar. Nunca fora sereno, nem mesmo quando pequeno. Criança não voltaria a ser. O cheiro maternal lhe lembrava o abuso. O pai, ele nunca voltara a ver. Os olhos amendoados da menina na escola, sua lembrança mais feliz durante toda a vida. O adeus precoce sem causa remediada. Com a dor premeditada. A lembrança mais triste e a ferida incurável. Sobrevi...