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Texto da vida

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Queridos, Uma página em branco com linhas pretas delimitadas esperando que alguém, algum dia venha a escrever algo. Imaginem que seja mais ou menos como funciona a nossa vida. No início ainda há muito que percorrer e conhecer, mas o que será escrito depende de nós. O início de um texto é sempre mais complicado porque não sabemos exatamente como introduzir algo que é desconhecido para nós e para os outros. Existem alguns rabiscos, mas como sabemos que é possível melhorar no decorrer da narrativa deixamos que as palavras corram. Assim, podem ser desenvolvidas com mais calma depois. Quando o texto já está mais encaminhado é necessário mais atenção. Muito parecido com nossas vidas, em que uma escolha pode comprometer todas as estruturas. A diferença é que as palavras (unicamente escritas) podem ser apagadas. As ditas são irreversíveis. O texto em seu desenvolvimento exige uma boa elaboração, para convencer o leitor do que você quer que ele acredite. Na vida real é exatamente...

Ensaio sobre a felicidade

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            Dispa-se de todos os números e projetos que você fez antes de ler esse texto. Porque a felicidade não exige muito além de simplicidade, ou talvez isso seja muito.             A gente acorda todo dia com uma série de tarefas para cumprir e mais outro tanto imenso de obrigações. Tudo isso em prol do que julgamos necessário para termos algo no futuro que nos torne felizes. Acontece que a felicidade exige o presente.             Ela está por aí, desfilando o tempo inteiro, vagando de maneira tão simples que muitas vezes somos incapazes de perceber. Porque a nossa cabeça anda ocupada demais, preocupada demais, triste demais com coisas que nem tem tanta importância assim.             A felicidade fica gritando nos pequenos momentos do dia a dia para que nós possamos ouvi-la. No ...

Não seria não

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Não seria não Aos 40 anos, um rosto sério Enlaçado com cicatrizes do tempo Outrora não muito gentil Erguendo sob o nariz, óculos quadrados Aos 20 anos, com um sorriso sincero Sem preocupações constantes Num ideal arbitrário da vida Com sonhos bonitos do futuro brilhante Aos 40 anos, num instante simples Lavando a vida devagar Perfazendo cálculos extensos Sem aspiração para a poesia Aos 20 anos, com toda a sensibilidade Num intrínseco de vaidades Escrevendo notáveis poemas Preenchendo espaços incalculáveis Aos 40 anos, um olhar severo observava Numa barreira impenetrável de concreto Sonhos falhos e memórias gastas Ausência absurda de afeto Aos 20 anos, estendendo sua mão Na compreensão de defeitos de outrem Vivendo num mundo pequeno Restrito demais para alçar voo Aos 40 anos, um senhor temido Com a voz forte e vibrante No charme que a juventude não perdera Tornara-se frio e triste, uma pena Aos 20 anos, r...

Álvaro Vince, sem roteiros - Parte VI

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Seus olhos estavam vidrados no horizonte. Ela tinha plena consciência de que estava novamente exigindo demais de si, mas não conseguia parar. Continuava a traçar metas e fazer cálculos minuciosos dentro da cabeça. A vista era um emaranhado de cinzas... Prédios, tempo fechado, pessoas apressadas e mau humoradas. Tamborilou os dedos três vezes na grande mesa de vidro. Anotou algumas poucas observações. Sentia que aquele negócio iria fluir, como todos os outros que havia administrado, mas não estava tão disposta a tomar as rédeas dele. Sentia-se cansada. A palavra exaustão descreveria melhor.  Esfregou os dedos sobre as têmporas fechadas e tentou lembrar-se onde havia guardado seus remédios para a dor de cabeça. O médico havia lhe receitado centenas deles, mas alertou que nenhum faria tanto efeito quanto alguns dias de folga. Ela sorriu laconicamente. Nem se lembrava qual fora a última vez que tirara férias. Talvez fosse mesmo o momento certo para isso. Para onde iria? Pa...

Quem morre se engana

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Quem morre se engana. Não passa o tédio, nem enaltece o drama daquele infinito particular ou coisa qualquer que inventaram para nos aprisionar. Apinhados entre barras de ferro, atados a nossos próprios instintos, caminhando por um percurso doloroso, atrozes e como lobos famintos. Estamos destinados, será? A morrer de amores e trepidar na intensa chama que se aquece ao luar, num falecimento múltiplo e sem pudores de tudo o que nos foi ensinado para se preservar. Mas para a nossa sorte, depois da morte indecifrável há sempre um ressurgimento. Como uma fênix, talvez. Aquela que ressurge das cinzas e joga beijos de esperança  aos outros pássaros que sonham com a sua magnitude. Quem morre também revive. Acontece o nosso ciclo da vida, esse trapaceiro! Morremos e revivemos a cada novo dia. Adquirimos experiências (boas e ruins) e construímos uma vida nova. Com base em artefatos das outras vezes em padecemos. Quem morre se engana ao achar que morrer é reviver sem nenh...

O Vestido de Julieta

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Nem bolas, nem sapatos de cristais De uma vasta vinícola Percebia tudo por altos vitrais Numa pequena propriedade agrícola Seus olhos se enchiam de paixão Ao doce galanteio Das palavras escritas à mão Por um jovem um pouco alheio Tomou-se por sentimentos O amor outrora misterioso Um coração sempre atento Tornou-se o oráculo frondoso Cartas e bilhetes sem fim Pousavam na sua janela Declarações de um querubim As rosas, as violetas e as aquarelas Escolhera seu vestido mais bonito A pulsação ribombava Não vira seu rosto aflito Na ansiedade do momento que esperava Apertou bem forte o seu laço Por fim de tanto anseio Desejava um caloroso abraço Queria um longo beijo Ah! O vestido de Julieta, Esperando o seu Romeu. Gabriela Aguiar

Alma Ferina

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(Pintura de Hamish Blankely) Gestos taciturnos A boca sexy se abre em desdém Os olhos da gata noturna Se estendem para mais além Batom vermelho vibrante Voz rouca encantadora Quadril delineante Moça ardente, sedutora Olhos de lince selvagens Garras de uma boa caçadora   Mente  brilhante  em margens Língua ardilosa, reveladora Coração mundano E alma ferina Gabriela Aguiar