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Álvaro Vince, sem roteiros (Parte V)

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- Você é esquisito. Álvaro segurou o sorriso para não parecer muito debochado e ofender a moça. Bebericou sua xícara de café e pacientemente abriu o jornal. Notara que a moça esperava uma resposta, mas simplesmente quis fazê-la esperar. Ela o socorrera quando estava caído sozinho na praça e não contara para ninguém, assim como ele havia lhe pedido. Pediu um café e uns biscoitos no quarto para ter um momento a sós com ela, sem levantar suspeitas e para analisar por quanto tempo ainda manteria de sua palavra. Débora não lhe enchera de perguntas, nem tampouco mencionou nada que lembrasse a noite anterior. Apenas trouxera o lanche e ficara em silêncio por um bom tempo, quando ele lhe pediu para esperar. Depois de não mais aguentar ficar calada, disse algo que ele não esperava. Ela com certeza era bem diferente. - É o que sempre dizem – Falou após sua pequena reflexão, enquanto passava os olhos pelas notícias sem prestar atenção em nenhuma. - E você não se incomoda? – Ela arq...

Carta ao amor (que não quero que vá embora)

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Minha querida,             Teus olhos já não refletem mais os nossos dias ensolarados de domingo. Mas lhe peço meu amor, que não os esqueça. Mesmo que dentro de ti haja uma tempestade furiosa, gritando aos teus ouvidos que nada valeu a pena.             Escrevo esta pequena carta como uma súplica, dessas que saem baixinhas, mescladas com palavras simples, mas com muitos significados que nós dois conhecemos muito bem. Elas fluem do meu coração, assim como toda a sinceridade que contém aqui.             Não sei exatamente qual foi o ponto que as coisas começaram a ficar diferentes. Não sei em qual dia tomaste a decisão de desistir da nossa vida como um casal e resolveste deixar para trás todos os nossos planos, sonhos e ambições.             É bem certo que ...

Poeta e contradições

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Fez-se encanto Transformou-se em poesia Dedicou-se a prosa Obedeceu cada verso Abriu a carta Silenciou a mensagem Epígrafe de coragem Sorteou um zelo epistolar Cansou-se de gravuras Puxou a literatura Sonhou o cordel Rimou com o céu Distraída e alternada Uma hipérbole calada No eufemismo do exagero Bebeu o poeta por inteiro

Álvaro Vince, sem roteiros (Parte IV)

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          As chamas do fogo dançavam no alto e davam beijos estalados nas paredes de madeira. O pequeno casebre fora totalmente consumido pelo incêndio. Não haveria nada ali que pudesse ser salvo.             O garotinho chorava e agarrava-se as pernas da mãe. Era a sua casinha. Por que seu pai tinha feito isso? Por que ele destruíra a própria casa? Onde eles iriam morar agora?             Olhou para cima, com a finalidade de observar o rosto da mãe. Ela não chorava, mas nos seus olhos ele podia ver uma dor lancinante. Abraçou-a com mais força do que podia com seus braços magricelos. Queria dizer com tal gesto que estava ali, do lado dela.             Seu pai sempre bebeu muito, brigou muito e de vez em quando lhe batia com força. Mas nunca antes tinha feito algo que ele considerava tal ab...

Bem-vindos! Mas não queiram ficar...

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Bem-vindos ao mundo no qual a demonstração de afeto é algo absurdo. Onde o amor é "coisa de filme" e os bons sonhos são bobagens. Bem-vindos ao mundo em que o egoísmo vale milhões e o caráter não vale mais do que alguns centavos. Bem-vindos ao mundo em que a alma não significa muita coisa e a fé é apenas um acessório a ser pendurado no pescoço. Sejam todos bem-vindos! Mas, por favor, não façam questão de ficar. Sempre podemos escolher o diferente e, quem sabe, construir um novo mundo. Está tudo aí, nas nossas mãos! G. C. L. A.

Às vezes é difícil dar tchau

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Às vezes é difícil dar tchau. Sair por aí, sem mais ninguém, com uma mochila cheia de esperança pendurada nas costas, procurando por si mesmo. E descobrir-se em uma antiga fotografia, com os cabelos despenteados, os olhos brilhando e o sorriso inocente de criança. As mudanças estão sempre nos acompanhando. Na nossa rotina quase cega, esquecemos-nos de ver o que fomos um dia e o que ainda deve permanecer em nós. Uma dica importante é guardamos a nossa essência em uma pequena  caixa, para que caiba na nossa mochila e não seja esquecida em nenhuma despedida. Adaptamos-nos ao meio. Ao convívio e ao que esperamos de nós mesmos. Nos cobramos tanto que esquecemos da simplicidade, do cheirinho de chuva e da rede armada na varanda. É como escrever o nosso nome e não reconhecer a própria letra, mas saber que aquilo ali, naquele papel, é sobre você. Os olhos não precisam ser rasos, nem decifráveis. Mas alma, com certeza, necessita de profundidade. Procurar-se e encontra-se. Há ...

Conto de olhos nublados e coração cego

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Pegou o seu Machado de Assis. Ficou divagando sobre a vida enquanto passava os dedos vagarosamente sobre a capa. Abriu o livro na página que estava marcada, mas não conseguiu formar sequer uma palavra na sua cabeça. As letras pareciam estar todas embaralhadas. Olhava para o papel e não via a história, nem a mão, nem a luva. Continuou com o livro aberto, entretanto já não tentava mais ler. Deixou que seus pensamentos lhe guiassem. Há muito queriam fazer isso. Uma lágrima caiu dos seus olhos. Não se preocupou em limpá-la, pois ninguém veria. Ela estava sozinha em casa. Tinha a personalidade inquieta e sorriso fácil. Gostava bastante de conversar, mas hoje não queria que as palavras saíssem da sua boca, preferia guardá-las ou se pudesse preferia esquecê-las. Fez o que jurara para si mesmo não fazer. Mas quem nunca? Quem nunca quebrou um juramento? Dissera para si mesmo que não se arrependera e que fora uma boa escolha. Entretanto, bem no fundo (talvez nem tão fundo assim), ela ...