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Carta ao que já fui

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              Querido,             Durante muito tempo eu fui trapezista de um circo. Desses de pequeno porte que vagam em várias cidadezinhas para levar alegria e um pouco de diversão por onde passam. Eu adorava estar no picadeiro! Minha parte preferida era quando o público ficava admirado com as minhas piruetas e impressionados com a minha capacidade de dançar bem lá no alto... A vida era uma correria sem tamanho, mas não havia nada mais prazeroso nesse mundo do que ver as pessoas se aglomerando e sorrindo dentro daquela lona colorida, cheia de balões. Circos deveriam ser considerados a tenda das felicidades, por mais ilusórias que sejam, ao menos trazem distrações para quem tanto se preocupa com outras coisas, por menores que possam parecer.             Alguns dos meus dias não eram muito fáceis também. Entretanto, sempre que ve...

Retrato

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Estava totalmente perdido na imensidão desenfreada do destino. Ontem era apenas um menino. Veloz no seu caminhar e sem muito no seu pensar.Hoje, com sábias palavras sobre experiências vividas em tempos de alegrias contidas, no velho alcance do quebra-mar. Eram poucos passos para a sina enfadonha, chorando a velhice, o passado e a vergonha do lar descontínuo. Os braços não alcançavam mais os sonhos. O futuro era triste e medonho, não fazia jus ao que fora prometido. Não sabia nada sobre a morte, nem tampouco tivera a sorte para acolher um bom amigo. O frio invadia a madrugada. O clarão da velha estrada dava um toque sutil ao luar. Nunca fora sereno, nem mesmo quando pequeno. Criança não voltaria a ser. O cheiro maternal lhe lembrava o abuso. O pai, ele nunca voltara a ver. Os olhos amendoados da menina na escola, sua lembrança mais feliz durante toda a vida. O adeus precoce sem causa remediada. Com a dor premeditada. A lembrança mais triste e a ferida incurável. Sobrevi...

A jornalista Gabriela Aguiar lança seu segundo livro neste sábado (6)

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Livro à Beira da Estrada será lançado durante o Bate Papo Literário no 13º Salipi às 19h00 Motivada pela curiosidade de saber como era a vida dos moradores dos lugares isolados no trajeto que fazia de Teresina a Corrente quando criança, a jornalista Gabriela Aguiar lança seu segundo livro. "À Beira da Estrada" é um livro reportagem que traz histórias, hábitos, rotinas e curiosidades sobre pessoas que vivem afastadas das cidades, em casinhas à beira da estrada. “Quando eu era criança, morei no interior do Piauí, em Corrente. E sempre que viajava de Corrente para Teresina e via algumas casinhas no meio da estrada, bem longe de qualquer centro urbano. Eu me perguntava sobre a vida daquelas pessoas. Como faziam para se locomover, se tinham amigos, se frequentavam a escola, quais eram seus sonhos, se estavam ali por opção e se preferiam viver em outro lugar. E "À Beira da Estrada" veio como uma forma de responder as minhas curiosidades, as minhas pergunt...

De coração

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Sou dessas que fazem as coisas com o coração. É, com o coração! Se não faz bem, descarto. Se me agrada, logo me apego e dou o meu melhor para que aconteça, para que cresça. Mas é sempre (tudo) com o coração. São retalhos (bem pequenos) de coisas que absorvi ao longo da vida. E por coisas, pode-se entender que pessoas também. Pedacinhos costurados de “no que eu me transformei”. E é por isso que faço de coração. Por achar nele um motivo (muito inexato e com vontade própria) para acreditar que tudo pode ser melhor. Ah sim! O texto foi (quase) de coração. Talvez a razão tenha ditado algumas palavras, em alguns dias é um pouco difícil separar um do outro. Mas quem se importa mesmo?

Álvaro Vince, sem roteiros (Parte III)

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As ruas da cidade estavam quase vazias. Eram poucas as que pessoas circulavam tarde da noite, ele pensou. Provavelmente seria por isso que aquele fosse seu horário preferido para dar uma volta. A cidade tinha mesmo um tom melancólico. O barulho do vento assoviava ao balançar as portas de ferro de algumas casas aparentemente abandonadas. Se acrescentasse um uivo, com certeza seria a descrição perfeita de um filme de terror. Desses em que vítimas são perseguidas e conduzidas pelo seu algoz sem nem perceber e quando se dão conta, a morte é uma certeza. Sorriu irônico. Deveria colocar o velho Getúlio numa armadilha dessas. Só para ter certeza de se o coração dele aguentaria uma dose extra de sustos e adrenalina. Mas o velho estava mais para o “caçador”, do que para vítima. Ah, isso ele nunca seria de verdade, “a vítima”. Caminhou até uma pracinha iluminada. Banquinhos de madeira estavam espalhados perto de grandes árvores. Alguns jovens veriam aquilo como romantismo, um lugar id...

Álvaro Vince, sem roteiros (Parte II)

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Bateram à porta do seu quarto. Pelo horário devia ser o serviço do hotel trazendo o jantar. Eram pontuais e ele gostava disso. Abriu a porta e deu de cara com os olhos negros e sombrios, era um hotel bem pequeno, a camareira deveria exercer várias outras funções, ele presumiu. - Sr. Vince, o jantar que foi pedido. – Ela apontou com a cabeça para a bandeja de comida. - Pode entrar e servir na mesa que está vazia - Ele respondeu seco. A mulher um pouco baixa e muito séria entrou no quarto e começou a preparar a mesa para o jantar. Álvaro observava-a atentamente, ela seria uma boa inspiração para algum personagem. Tinha certeza disso. - Algum problema senhor? – Ela indagou-o com o rosto duro. - Não. Qual seu nome? - Débora – Ela foi incisiva. - Combina com você. - Dizem – Débora deu uma resposta inconclusiva– Tudo pronto aqui. Boa noite e boa ceia – Pegou a bandeja vazia e retirou-se batendo a porta. Álvaro achou curioso uma mulher que falasse tão pouco, principalme...

Carta ao (mau) amor

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Cansei de chamar-te, querido. Cansei de dar-te todos estes nomes carinhosos que outrora fazia gosto em falar. Cansei de bem querer-te. Não me preocupo mais em pronunciar-te como o meu único e indiscutível amor. Durante algum tempo fostes meu e de mais ninguém. Era um sentimento de posse, desses que o amor nos permite ter. Não que não fosse repartido, mas a sensação era de que eras de fato meu. Porém o sentimento pertencia somente a mim. É impossível doar-se sem receber um mísero tostão de carinho em troca. Acreditei em palavras frias de uma mente vazia sem um coração com veias pulsantes. Pensei que poderia lhe trazer a vida, mas ao invés disto, foste tu que roubastes a minha. Não tiveste nem a consideração de absolver uma ré inocente do teu julgamento falho. Cansei de esperar-te para ser feliz. Buscarei a minha felicidade e a encontrei sozinha, sem a ajuda de mais ninguém. É, de fato, bem melhor quando se é compartilhada, mas neste caso cansei de mendigar a tua atenção. Prec...