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Alexandre e Valentina

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Alexandre me disse que o coração dos homens é cheio de incertezas, principalmente o dos homens inteligentes que tem muita ambição na vida. Compreendi instantaneamente. Mas fui vaga em minha resposta, disse-lhe apenas que homens inteligentes precisam de quebra-cabeças que não sejam fáceis de resolver. Ele então assentiu e por alguns longos minutos não tornou a falar novamente. Estava submerso em seus pensamentos. Eu não sabia ao certo por onde sua mente fascinante vagava, entretanto, possuía uma vaga ideia do caminho que tomara. Não o ajudaria com mais palavras, deixei que meu silêncio respondesse por mim. Ele era plenamente capaz de compreender o que ficou subentendido, saberia ler com mais clareza a alma de uma pessoa do que se pudesse ler mentes. Ou pelo tentaria. O som estrondoso do silêncio continuou a reinar entre nós. Ele então levantou-se do sofá cor de caramelo, deu duas palmadinhas nos bolsos procurando a chave do seu Cruze, olhou para fora da casa com rosto duro, ain...

Esquecimento

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Na tamanha epígrafe do seu zelo Contra fatos de cruel instância Esqueceu-se do atormentado apelo Não havia mais qualquer importância Tornara-se assustadora desde cedo Entoava saudade por toda a sua garganta Criava voluptuosos percursos de medo Depois tudo cobria com uma fria manta Sem bons sonhos no varão da madrugada Os olhos jaziam em rimas juvenis Por dentro não aquiescia, estava gelada Do descontentamento de alardes pueris Sentiu-se da pior maneira enganada Na visão de um sôfrego tropeço Por poucas sílabas desgraçadas Ausente de magia e recomeço Esdrúxulo e pouco confuso Porque em mente sã e teimosa Ribombavam trovões difusos Não poderia ser deveras valiosa Para todo mal e suplício Havia um castigo incandescente Na aflição de qualquer vício Afastar-se de todo tipo de gente Gabriela Castro Lima Aguiar

A apanhadora de sonhos

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Uma velha cabana renegada a sorte do tempo, diriam. Ou talvez a chamassem de casa abandonada com direito a fantasmas assustadores. Mas a única assombração real era o medo de que seu lar fosse destruído e por algum motivo banal a expulsassem de lá.             Ela morava naquela casa antiga há quase três anos. Foi um período difícil. Estava sozinha e carregava no ventre uma criança. Seus pais não entenderam que era fruto de um amor, nem seu parceiro sequer aceitou isso. Ele insistiu para que aquele pequeno ciclo da vida fosse interrompido, mas ela se recusou. Comprou com o pouco dinheiro que tinha a pequena cabana. Para sobreviver produziria e venderia pequenos artefatos místicos, uma coisa que sempre a interessou.             Por ser sua, e em parte por sentir-se como ela, decorou toda a cabana do seu jeito. Transferiram-se os mistérios de uma para a outra. Não se sabe ...

Nem tudo é um romance: a construção de Sophia

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Riscaram na minha pele, não sem dor, as asas de um pássaro. O mais estranho é que eu autorizei. E como se já não fosse muita audácia, ainda fiz questão de escolher o lugar. Costela. Esculpiram em mim o que Deus não havia me dado. Estava achando tudo o máximo, talvez fosse só o efeito das drogas que experimentei. Saí do estúdio, que cheirava hospital, tinha uns pôsteres de bandas de rock e algumas mulheres seminuas pintadas nas paredes, com um plástico vermelho cobrindo a vermelhidão da minha pele. Meus pais me matariam, mas foda-se. Eu ia arrumar minhas coisas e morar com uma amiga até meu apartamento ficar pronto. Ao chegar em casa, meu pai estava a minha espera. Ele tinha o dom de adivinhar quando eu aprontava e arrogância de nunca me elogiar quando fazia algo certo. Não lembro direito como ele viu a tatuagem, ainda estava chapada o suficiente quando o cinto veio de encontro as minhas pernas violentamente. Uma, duas, três... Minha mãe que assistira tudo desde o começo pediu ...

Diálogo bobo

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- Você tirou a sorte grande, gatona!             - Cala essa boca.             - Confessa que me ama.             - Prefiro morrer!             - Olha lá o que você tá dizendo hein?             - Quer que eu repita? P-R-E-F-I-R-O M-O-R-R-E-R             - Eu só posso sorrir disso.             - Faça o que você quiser, só cale essa maldita boca e me deixe em paz.             - Viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiixe. Tá irritadinha é?             - Vai pro inferno.     ...

Profissão: modelo, ex-morador de lixão

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Não se atreveu olhar para baixo. Tinha medo do que poderia ver e não necessariamente da altura. Os olhos perdidos divagavam sobre a terra de ninguém. Ou ela teria algum dono fincando raízes em outro lugar inóspito? Não queria sorrir, pois não era o momento para isto. Mas não pode evitar.             As pessoas ao seu lado pareciam estarrecidas, embora provavelmente não soubessem o significado dessa palavra. Um aspecto grotesco ainda dominava. Eram obrigados a dividir o seu espaço com aves vorazes a procura de qualquer resto que lhes garantisse a sobrevivência. Pobre, bem pobre, existência.             Ele não se recordava ao certo como havia ido parar ali. Nascera longe, numa cama ensanguentada de hospital. Fora colocado para ninar em um berço de papelão e então rodou por vários lares até que, no fim, foi acolhido num pequeno barranco. Aprendeu a chamar de pai um ...

Meu herói

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Vô Zuzinha foi um herói que, no tempo devido, aposentou seu cavalo. Trouxe a esta terra todo o seu gado e aqui formou os laços mais fortes desta vida. Encontrou um grande amor e o frutificou 11 vezes. E em cada uma destas, mais sementes de amor foram plantadas. Ele acolheu a cada uma com sua fé inabalável da firmeza de uma família. Como todo grande herói, ele enfrentou todos os seus desafios. Não desistiu quando tudo conspirava para isso. Persistiu, insistiu. Fez suas escolhas e traçou um caminho bonito e aconchegante para todos os seus seguidores. Tinha o super poder da bondade, um muito difícil de ser encontrado. Usava-o sempre, sem medir esforços. Estendia sua mão a todos, não julgava cor, classe ou origem. Ele voava também. Voava no tempo e trazia consigo histórias para quem quisesse ouvir. Além de tudo isso, ainda tinha o incrível poder de sorrir, mesmo quando alguma vilania do destino ameaçava a alegria. O super herói mais forte, eu diria. Não tinha medo de nada, nem m...