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Profissão: modelo, ex-morador de lixão

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Não se atreveu olhar para baixo. Tinha medo do que poderia ver e não necessariamente da altura. Os olhos perdidos divagavam sobre a terra de ninguém. Ou ela teria algum dono fincando raízes em outro lugar inóspito? Não queria sorrir, pois não era o momento para isto. Mas não pode evitar.             As pessoas ao seu lado pareciam estarrecidas, embora provavelmente não soubessem o significado dessa palavra. Um aspecto grotesco ainda dominava. Eram obrigados a dividir o seu espaço com aves vorazes a procura de qualquer resto que lhes garantisse a sobrevivência. Pobre, bem pobre, existência.             Ele não se recordava ao certo como havia ido parar ali. Nascera longe, numa cama ensanguentada de hospital. Fora colocado para ninar em um berço de papelão e então rodou por vários lares até que, no fim, foi acolhido num pequeno barranco. Aprendeu a chamar de pai um ...

Meu herói

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Vô Zuzinha foi um herói que, no tempo devido, aposentou seu cavalo. Trouxe a esta terra todo o seu gado e aqui formou os laços mais fortes desta vida. Encontrou um grande amor e o frutificou 11 vezes. E em cada uma destas, mais sementes de amor foram plantadas. Ele acolheu a cada uma com sua fé inabalável da firmeza de uma família. Como todo grande herói, ele enfrentou todos os seus desafios. Não desistiu quando tudo conspirava para isso. Persistiu, insistiu. Fez suas escolhas e traçou um caminho bonito e aconchegante para todos os seus seguidores. Tinha o super poder da bondade, um muito difícil de ser encontrado. Usava-o sempre, sem medir esforços. Estendia sua mão a todos, não julgava cor, classe ou origem. Ele voava também. Voava no tempo e trazia consigo histórias para quem quisesse ouvir. Além de tudo isso, ainda tinha o incrível poder de sorrir, mesmo quando alguma vilania do destino ameaçava a alegria. O super herói mais forte, eu diria. Não tinha medo de nada, nem m...

Praia do Arqueiro

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Dirigi no automático por mais ou menos duas horas, ou pelo menos eu achei que tivesse sido. Só fui me dar conta de para onde eu estava indo quando cheguei no local. Uma espécie de refúgio para algumas aves perdidas e para almas que erraram o caminho. Mais almas do que aves. Respirei fundo no banco do motorista e contei até 10, mantendo o ritmo da inspiração e da expiração. Vi através da camada fina de neblina que meus companheiros pássaros estavam mais contentes do que eu. Isso era bom. Eles estavam alheios ao tempo. Fazia quase uma semana que não se via o sol. Eu gostava de dias nublados, mas, às vezes, as cores faziam falta. Desliguei o carro e fui de encontro ao mar. Não queria nem pensar no frio infernal que a água deveria estar, entretanto, ela melhor pensar em qualquer coisa do que em pessoas. As coisas não conseguiriam nos decepcionar, pelo menos não por vontade própria. Olhei para as aves entretidas com os siris na areia. A praia do Arqueiro lembrava o abandono. Antiga...

Não ouvi o suficiente

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Terremotos de vaidades Explodem no meu doce inconsciente De todos os discos e bandas De todos os tipos de gente Grades de ferro não barram saídas De todos os meus desafios Sem cordas obscenas de nylon Das mais humildes feridas Poderia me manter forte E desejar ter toda a sorte De um nômade no paraíso Se é que é preciso força pra isso Andarilhos que não buscam trilhas Passagens de volta, em milhas Queria poder ouvir tudo Sem voltar a cada dia da semana Gabriela Castro Lima Aguiar

Querido Ulisses,

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                Não sei como aconteceu, nem tampouco qual foi o motivo para que nos distanciássemos assim. Acredito que a culpa não tenha sido sua, nem minha. Do tempo talvez, mas por que responsabilizá-lo se ele é incapaz de voltar? Então o problema deve ter sido das circunstâncias. Mas também não vou julgá-las. Sou incapaz de saber exatamente quais foram.                 A verdade é que talvez não ajam culpas. Provavelmente existam arrependimentos, mas não estou tão convicta quando a isso. Afinal, coisas feitas de maneiras diferentes podem ter obtido um resultado melhor do que o esperado. Eu deveria lhe pedir desculpas pelas duas vezes que lhe ignorei, mas seria cinismo da minha parte dizer que não fiquei feliz. Porque fiquei por mim, por me mostrar que já não era tão importante assim. Lembre-se apenas de que quem começou foi vo...

Correr para o mar

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É sempre bom saber nadar Vai que um dia inunda Vai que um dia o barco afunda Como o Titanic colidindo com o iceberg É sempre bom mergulhar Descarregar as energias no mar E deixar que as ondas levem Todo o mal que houver em si É sempre bom saber amar Deixar a vida mais leve E a respiração mais sincera É como saber nadar e mergulhar Gabriela Castro Lima Aguiar

O poeta que não escrevia

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Sorria discretamente. Começava no cantinho da boca até que a alegria se espalhava pelo resto do seu rosto. Era uma mistura de mistério com preservação. Não porque tinha medo de se mostrar, mas porque gostava de ser assim. Ele não gostava de ser o centro das atenções, preferia observar o mundo e entender um pouco de toda aquela loucura. Chegava a ser filosófico, mas não embasado em teorias de Platão ou Aristóteles, tudo que sabia tinha aprendido na vida. E qual escola melhor do que essa?             Talvez ele não fosse brilhante em decifrar mapas ou entender perfeitamente as pessoas, mas era dotado de uma sensibilidade para tentar compreende-las, mesmo que não fizessem sentindo algum. Não julgava. Conseguia perceber os detalhes que outrora qualquer outra pessoa teria deixado passar. E isso ainda estava atrelado a um bom senso se humor, não se aborrecia tão facilmente. Na verdade, era um tanto quanto difícil deixá-lo irritado ...